Querida Bazinha,
Hoje é dia 6 de novembro, o que significa que mais um dia 28 de outubro passou. Já são mais de dois anos sem ter você.
Sei que 78 anos devem ser tempo suficiente para construir uma linda história. Mas 21 não foram suficientes pra saber tudo o que eu gostaria sobre você. Não sei como foram seus 20 e poucos anos, não sei quem foram seus namorados e por que você acabou escolhendo o Di, não sei por que você resolveu ter três filhos e sequer sei se você gostava de ser professora.
Queria também te contar sobre a vida aqui, tivemos um bocado de novidades nesses últimos dois anos. Eu me formei – e como fiquei triste por não você não estar lá; tenho um trabalho – não gosto dele, mas ganho um salário pra poder pagar conta e comprar alguns mimos pra compensar; eu e o Helder moramos juntos e temos uma cama queen size e uma LCD de 42′ no quarto. Você tem mais uma bisnetinha e a Tati foi morar em São Carlos; achamos suas orações e pedidos escritos para os Santos fazerem minha mãe parar de fumar, mas sinto lhe dizer que não funcionou; a Lays passou na faculdade e estuda Jornalismo (eu avisei que a Comunicação não é uma área fácil); o Buddy está de volta em casa e a Sophia ficou doente pela primeira vez, mas continua amorosa e com o narizinho dourado arrebitado – só que, na sua ausência, ela virou sombra da minha mãe. A família anda “daquele” jeito; confesso que tem gente que não vale a pena e só daria desgosto pra você.
Queria também que você soubesse que eu conheci pessoalmente o Dave Matthews, o Ben Harper, o Michael Stipe e o Adam Levine (você provavelmente não conhece nenhum, mas é lógico que eu mostraria fotos de todos eles pra você). E o Príncipe William já não está tão bonito, mas hoje meu cantor favorito é o John Mayer – são as músicas dele que me acalmam no stress do trânsito de São Paulo (você tinha que ouvir a Vultures… é muito boa! A Lays inclusive me deu um CD dele com essa faixa ao vivo no último aniversário). Quê mais? Ah, o Helder usa aquele chaveiro que você deu pra ele, lembra?! E a minha marca favorita de roupas é a Farm (se bem conheço, você também ia ficar doidinha com as coisas lindas de lá). Eu continuo fissurada no meu iPod – roubaram aquele que o tio tinha me trazido de NY, mas eu já providenciei outro.
De resto, você não está perdendo nada. O mundo continua louco, guerra, crime, trânsito, prédios horrorosos, pessoas matando, roubando, se drogando, tem até gente brigando por direitos autorais em blogs. Mas o mundo ainda tem lugares muito bonitos – conheci Buenos Aires, Montevidéu, Punta del Este e já tenho passagens compradas pro Rio e pra Recife. Descobri que viajar é a melhor coisa do mundo e, toda vez que eu compro um vestido da Farm, penso que poderia estar pagando uma parcela de uma viagem legal. Ah, falando em viagem, lembra quando você disse que minha mãe era louca de me mandar sozinha pra Inglaterra quando eu tinha 15 anos?! Bazinha, não pense assim; já faz anos e anos que eu fui e ainda consigo sentir o cheiro e a sensação boa de estar em Londres. Aliás, queria também te contar dos meus planos frustrados de ir morar na Europa; eles nunca se concretizam… O Helder não quer ir comigo e é tão difícil deixá-lo aqui sozinho. Mas 2010 está aí, quem sabe?! Queria jogar tudo pro alto, largar o emprego que não me faz feliz, vender meu carro, pegar a grana e ir morar num lugar lindo, aprender uma nova língua e tentar descobrir meu caminho. Você acha muita loucura?
Bom, você já deve estar cansada de tanta informação. Saiba que todo mundo sente saudade – e você é, sem dúvida alguma, a pessoa que mais faz falta aqui.
Hoje eu sonhei com você e isso me fez lembrar que eu não posso desistir das coisas. E foi por isso que eu vim escrever essa carta pra você. Eu já tinha desistido desse blog também - como diz o nome que eu dei pra ele, não tenho intenção nenhuma. Fiquei meses e meses sem escrever (um segredo: tentei exterminá-lo duas vezes, mas sempre dava algum erro). Não quero ter prazos e dias certos pra escrever aqui, não quero que meu blog seja igual a esses outros que se tornaram tão populares e até ameaçam o jornalismo formal. Quero escrever quando me der na telha, escrever o que eu quiser.
E, hoje, quis te escrever essa carta.
Não se esqueça que eu te amo.
Um beijo,
da sua Lininha

A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires: